Gastronomia por Roberta Sudbrack
13/07/2007 ..
Minha velha caneta...
Todo chef que se preza tem uma boa faca – que não empresta, não dá e não vende! – um bom fouet, uma boa frigideira e uma caneta. Parece loucura, mas uma caneta faz uma falta e tanto na vida de um chef. Temos até um bolsinho no jaleco, onde normalmente está escrito o nosso nome, prontinho para receber uma caneta.
Nunca tive uma caneta. Sempre dei boas canetas para as pessoas que eu amava. Gosto de canetas, gosto de dar canetas, mas por uma malandragem da vida, nunca tive uma para chamar de minha.
Entro todas as noites na cozinha e digo: “Boa noite moçada, vamos começar o rock and roll!”. E logo em seguida emendo: “Alguém tem uma caneta?”.
Ontem finalmente ganhei uma caneta. Mas não foi qualquer caneta. Foi uma caneta de estimação, carregada com carinho, anos e anos, por alguém que por ela nutria um tremendo carinho. Uma caneta tipo camiseta velha, daquela que, como as facas, a gente nunca empresta, não dá e não vende!
Foi um dos gestos que mais me tocou ultimamente, talvez porque tenha vindo de maneira tão suave e inesperada... De alguém tão suave e inesperado. Ou porque talvez esse alguém não imaginasse o quão significativo seria para mim, finalmente, ganhar uma caneta. Ou pelo fato dessa caneta sem perceber ter escrito uma breve história de amizade profunda, sem sequer perceber que estava escrevendo.
Todas as noites quando vou dormir retiro os brincos e a aliança e coloco na minha mesa de cabeceira para no outro dia reencontrá-los e seguir a vida. Desde ontem eles têm a companhia da “minha velha” caneta. Hoje cheguei toda prosa ao restaurante com a minha caneta no bolsinho do jaleco e ao entrar na cozinha para preparar o almoço disse simplesmente: “Vamos começar o rock and roll, moçada!”.
Até!
12/07/2007 ..
Nosso encontro...
E já que o tema que anda nos rondando é encontro, o Grande Ego resolveu dar uma forcinha ao nosso!
O post de hoje será “ao vivo”! Estarei conectada através do Grande Ego às 15 horas para falar com todos vocês sobre o que passar pela cabeça!
O primeiro encontro mundial da Viva!
Até!
10/07/2007 ..
O encontro do tempo perdido...
Esses dias começam bem cedo. Talvez muito cedo até, para quem dorme diariamente tão tarde! Sete horas da manhã e lá estávamos nós na Cadeg em busca de flores para alegrar a casinha laranja à beira do canal. Quem pensa que detalhes como esses não fazem parte do nosso dia-a-dia precisa parar e repensar alguns conceitos.
Nossa vida está praticamente atada à palavra detalhe. É ela que nos move, só ela é capaz de demonstrar a diferença fundamental sem perder a inocência ou ser pedante. Detalhes que criam expectativa, geram emoção, incentivam o respeito e a fantasia. Detalhes que transformam, concluem, elucidam. Detalhes que alegram.
Ontem foi mais um dia de detalhes nas nossas vidas. Passamos o dia inteiro procurando a verdade mais pura e escondida dentro de cada um. Desde as primeiras horas da manhã, quando as flores foram nossa preocupação maior, até os últimos minutos de uma noite repleta de emoção. É difícil explicar o que se passa dentro de nós num dia como esses. Enfeitamos a casa, passamos o dia na cozinha preparando o nosso melhor detalhe e recebemos amigos.
Recebemos amigos, como velhos amigos. Não necessariamente apenas aqueles que já fazem parte do nosso convívio, mas os que passam a fazer a partir daí. É, portanto um dia de conquistas. Conquista de novos amigos, conquista de novas receitas, novas maneiras de pensar e de ver a gastronomia. Conquista da convivência com a equipe, de emoções que explodem como pipoca na panela a procura do sal e da manteiga na medida certa. Nem mais, nem menos, apenas o equilíbrio.
Esse lançamento de coleção foi nitidamente marcado por esse equilíbrio. Não que tenhamos deixado de ousar! Isso nunca! Ousar é quase tão fundamental na vida quanto equilibrar. Resta a nós a difícil tarefa de encontrar um porto seguro, onde tanto um quanto o outro se sintam confortáveis.
Ontem, por algumas magníficas horas, fomos capazes de vivenciar essa sublime sensação. Assistir a entrada do meu garçom chefe na cozinha, com um sorriso largo de alegria e satisfação, definiu, em minha opinião, o verdadeiro sentido da palavra: conquista.
Ele entrou na cozinha, logo nas primeiras horas de jantar – aquelas em que tudo ainda está meio fora de eixo – e disse: “Pode sorrir Chef. É sucesso garantido!”. Eu sorri e disse: “Vamos em frente. Temos um longo caminho”. Logo após ele entrou novamente, carregando ainda aquele sorriso confiante e confortável e disse: “O que a Senhora está achando?”. E eu respondi: “Eu estou feliz e eles?”. Ele sorriu mais uma vez e disse: “Estamos todos felizes”.
Fomos muito felizes ao som de Billie Holiday, Bennie Goodman, Cheat Baker e outros monstros sagrados no Jazz, numa trilha sonora iluminada e especialmente criada para embalar essa celebração. Na parte que nos toca, fizemos uma viagem entre o clássico e o moderno, numa cozinha essencialmente emocional, que busca precisão na técnica, no frescor da natureza e na confiança em estar fazendo o que se acredita.
Começamos com uma polentinha gratinada com asiago, que terminou a noite como creme brûlée de polenta! Os próximos pratos foram um mergulho profundo na cozinha moderna brasileira: o ceviche em sementes de quiabo e tapioca e o ravióli sem massa de lagostim e shimeji. Um pequeno corte e um breve retorno ao passado e à delicadeza no capeletti in brodo caipira. Em seguida entraram na passarela o pargo em vinagrete de lentilhas, brotos e ervas, seguido do lombo de porquinho de leite em marmelada de tomates e azeitonas. Novamente um vôo até técnicas modernas na galinha d’angola assada em alta temperatura escoltada por um ragu de favas brancas e escarola. A sobremesa foi novamente uma viagem entre o ontem e o amanhã na nossa versão do bomboloni de leite maltado.
Antes do final emocional, servimos o acalanto, nossa poção mágica de chocolate, servida quente como convém a quem acalanta. E o final emocional, esperado por todos nós, foi um prato que chamamos de “memória” e se resumia a simples lembranças da infância de cada um: brigadeiro de colher, pirulito de marmelo, geléia de mocotó, sagu e madeleines.
Por algumas horas o tempo voltou na casinha laranja à beira do canal e fomos capazes de reencontrar o que por ventura tínhamos perdido...
Até!
09/07/2007 ..
Ainda em busca do tempo perdido...
Falando ainda de lembranças, de cozinha emocional e de acontecimentos, hoje a casinha laranja a beira do canal estará em festa! Finalmente lançaremos a nossa coleção de inverno 2007. O tema da coleção anual é vida boa, inspirada na obra de Marcel Proust
“Em busca do tempo perdido”, e o subtema desse inverno será: memória.
Com esse prato cheio, imaginem onde iremos parar hoje à noite? Apesar do inverno insistir em tardar a chegar, resolvemos aquecer as chaleiras – adoro esse nome! – e aquecer os consommés, na esperança de que ao sentir o cheirinho bom, ele resolva finalmente bater à nossa porta.
A coleção vem embalada pela nostalgia dos melhores momentos que ficaram para trás, nas lembranças infantis – olha elas ao outra vez! – e na alegria de poder reviver tudo isso através de simples lembranças gustativas. Porque complicamos tanto as coisas se a vida pode ser tão boa?
A mesa está sendo arrumada, os arranjos finalizados, o mis-en-place concluído e os amigos chegando... Vai ser uma grande noite. Essa é a nossa única certeza. De resto, vamos deixar a memória nos guiar para saber onde vai dar essa estrada!
Amanhã conto tudo, prometo.
Até!
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